Colapso Fest: uma noite de peso, resistência e uma comunidade unida em Coimbra

No passado sábado, 12 de setembro, o Colapso Fest regressou ao Teatrão, em Coimbra, para a sua terceira edição. Anteriormente conhecido como Metalpunk Coimbra Fest, o festival apresentou-se de nome e imagem renovados, mas conservou a ligação à cultura DIY, à música underground e a uma postura assumidamente antifascista.

O programa do festival percorreu diferentes territórios da música pesada, do doom e sludge ao punk, post-hardcore e screamo. A música partilhou o espaço com uma feira de arte interventiva instalada no exterior do Teatrão, onde estiveram presentes ilustradores, tatuadores, vendedores de discos e merchandising, bem como associações ligadas a causas animais e humanitárias.

O mote do Colapso Fest foi mais do que uma frase, “Until We Are All Free, Music Is Resistance” sintetizou o compromisso do festival com a liberdade, a solidariedade e a ação coletiva.

Lord of Confusion

Coube aos Lord of Confusion abrir as hostilidades. Formada em Leiria, em 2018, a banda é constituída por Carlota Sousa, na voz e teclados, Danilo Sousa, na guitarra, João Fonseca, na voz e baixo, e Nelson Figueiredo, na bateria. O quarteto move-se por um doom pesado, psicadélico e hipnótico, ao qual chama “evil doom”.

Em março deste ano, os Lord of Confusion editaram o segundo álbum, The Weight of Life, sucessor de Evil Mystery, de 2022. O novo trabalho marcou uma nova etapa no percurso da banda, reforçando o peso dos riffs, a presença das duas vozes e a atmosfera sombria que caracteriza a sua música.

So Dead

Seguiram-se os So Dead, trio de Coimbra formado em 2023 por Samuel Nejati, na bateria, Sofia Leonor, no baixo e voz, e Miguel Padilha, nos sintetizadores e voz. Partindo de uma formação pouco convencional, o grupo cruza synth-punk, post-punk, art rock e elementos de no wave, fazendo do baixo, da bateria e dos sintetizadores o centro da sua identidade sonora.

Em maio de 2025, editaram pela Lux Records o álbum A Wet Dream and a Pistol, o mais recente trabalho do trio, gravado no Estúdio -5 em Coimbra. O disco conta ainda com as participações de Henrique Toscano, que também acompanha a banda ao vivo, e Filipe Fidalgo.

Caravananana

A atuação dos Caravananana proporcionou também uma pausa para jantar e recuperar do calor intenso que se fazia sentir dentro do Teatrão, num concerto gratuito no espaço exterior onde também se encontrava a feira de arte. O público podia circular entre as bancas e artistas, apreciar o concerto, conversar com os amigos e aproveitar o fresco da noite enquanto decorria a atuação.

A história dos Caravananana começou em novembro de 2021, quando João Figueiras e Pedro Venceslau se encontraram numa caravana, em Setúbal. Sem uma sala de ensaios disponível, fizeram desse espaço o primeiro quartel-general da banda e acabaram por transportar essa origem para o próprio nome do projeto. Atualmente, o grupo completa-se com Mauro Tagarroso no baixo. O lançamento mais recente é o single duplo Lonely Bird / Tequila, editado em 2025.

Dokuga

Depois do concerto dos Caravananana, os Dokuga trouxeram novamente o punk para o centro da programação. Nascida no Porto em 2006, a banda é atualmente constituída por Kisto, na voz, Miguel, na guitarra, Óscar, no baixo, e Pedro, na bateria.

Com quase duas décadas de atividade, os Dokuga mantêm uma abordagem crua, rápida e direta ao punk. O seu trabalho mais recente é Antes do Fim, álbum editado em novembro de 2024, gravado entre Cedofeita, no Porto, e a Póvoa de Varzim.

Pledge

Os Pledge juntam músicos provenientes do Porto e de Viana do Castelo e estrearam-se discograficamente em 2018 com o EP Resilience. A formação atual é composta por Sofia Magalhães, na voz, Hugo Martins, na guitarra, Vasco Reis, na guitarra e sintetizadores, Vítor Vaz, no baixo, e Igor Esteves, na bateria.

Entre post-hardcore, screamo, hardcore e alguns elementos de noise e sludge, o grupo trabalha sobretudo o contraste entre tensão, peso e momentos de maior abertura melódica. O seu mais recente longa-duração é Haunted Visions, editado em maio de 2021 pela Raging Planet Records.

Soul of Anubis

Vindos de Oliveira de Azeméis, os Soul of Anubis nasceram em 2010 e apresentam-se atualmente como um duo formado por Hugo Ferrão, na guitarra e voz, e Rui Silva, na bateria. A sua música cruza sludge, doom, thrash e post-metal, assente numa formação reduzida, mas orientada para um som particularmente denso e pesado.

Em fevereiro deste ano, editaram Ritual, álbum dedicado à passagem entre a vida, a morte e o renascimento. O disco aborda a perda, a luta interior e a tentativa de ultrapassar os próprios demónios, tomando como referência o percurso noturno de Rá pela mitologia egípcia.

Hetta

O encerramento ficou entregue aos Hetta, quarteto do Montijo constituído por Alex Domingos, na voz, João Pires, na guitarra, Simão Simões, no baixo, e João Portalegre, na bateria. A banda cruza post-hardcore, screamo, noise rock e punk numa música marcada pela urgência, pelas mudanças rítmicas e por uma forte dimensão física em palco.

Depois do EP Headlights, de 2022, e de várias edições partilhadas, os Hetta lançaram em novembro de 2025 o primeiro álbum, Acetate. Com 13 temas, o disco condensa a intensidade construída pelo grupo ao longo dos últimos anos de concertos e levou a banda, já em 2026, a atuações em Espanha e na costa ocidental dos Estados Unidos.

O Colapso Fest mostrou por que razão estes encontros são importantes e essenciais. Fora dos grandes centros e dos circuitos de maior visibilidade, festivais como este dão às bandas independentes a oportunidade de encontrar o seu público, partilhar um palco e fazer crescer uma cena que se constrói de concerto a concerto, de festival a festival.

Neste festival, essa sentido de comunidade estendeu-se para lá da sala do Teatrão: a feira abriu também espaço a artistas para mostrarem o seu trabalho e a iniciativas humanitárias, incluindo o apoio à liberdade do povo palestiniano. Nada disto foi um simples complemento à música. Foi parte da identidade de um festival que aproxima pessoas, dá visibilidade a diferentes formas de criação e lembra que a música e a arte também são uma forma de tomar uma atitude.

“Until We Are All Free, Music Is Resistance”

Até ao próximo ano…

Fotos & Texto: ®Daniela Barbosa

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