Combat Rock: os The Clash entre a guerra e o início do fim

Em 1982, os The Clash lançavam Combat Rock, um disco atravessado pela tensão política do início da década, pela abertura a novos territórios musicais e pelos conflitos internos de uma banda que estava prestes a perder a sua formação clássica. Quarenta anos depois, The People’s Hall voltou a abrir os arquivos desse período.

Quando Combat Rock chegou às lojas, a 14 de maio de 1982, os The Clash já tinham ultrapassado há muito as fronteiras do punk que os vira nascer em Londres, em 1976. Joe Strummer, Mick Jones, Paul Simonon e Topper Headon tinham passado pelo reggae, ska, dub, rockabilly e soul, transformando cada novo disco num território cada vez mais difícil de delimitar.

O quinto álbum da banda surge depois do ambicioso triplo Sandinista! (1980) e antes de Cut the Crap (1985). Mais importante: Combat Rock seria o último disco de estúdio gravado pela formação clássica dos Clash.

Editado pela CBS Records no Reino Unido — e pela Epic nos Estados Unidos —, o álbum tornou-se também o maior sucesso comercial da carreira da banda.

Um disco nascido num período de tensão

A Inglaterra do início dos anos 80 atravessava uma profunda recessão. O desemprego aumentava rapidamente — a taxa britânica atingiria 10,7% em 1982 — e os confrontos de Brixton, Toxteth e outras cidades no ano anterior tinham exposto fortes tensões sociais, económicas e raciais.

Ao mesmo tempo, a Guerra Fria continuava a alimentar o receio de um conflito nuclear. E quando Combat Rock foi lançado, o Reino Unido encontrava-se em plena Guerra das Malvinas/Falklands, iniciada com a invasão argentina a 2 de abril e terminada a 14 de junho de 1982. O álbum já estava essencialmente criado antes desse conflito, mas chegou ao público num momento em que guerra, nacionalismo e intervenção militar dominavam a atualidade.

Essa atmosfera encontra eco num disco onde os Clash voltam a olhar para poder, guerra, desigualdade e autoritarismo, mas sem ficarem presos a uma fórmula musical.

Know Your Rights abre o álbum com uma das abordagens mais diretas, transformando a linguagem dos direitos civis numa crítica carregada de ironia. Straight to Hell, por outro lado, olha para algumas das consequências da Guerra do Vietname, incluindo o destino das crianças nascidas de soldados norte-americanos e mulheres vietnamitas.

Também o Sudeste Asiático atravessa Sean Flynn, inspirado no fotojornalista, e filho do ator Errol Flynn, desaparecido no Camboja em 1970 enquanto cobria o conflito na região.

Muito para além do punk

Musicalmente, Combat Rock continua o caminho de abertura iniciado nos discos anteriores. Punk, reggae, dub, funk e hip-hop cruzam-se ao longo das doze faixas.

Dois temas acabariam por adquirir uma dimensão muito superior ao próprio álbum: Should I Stay or Should I Go, cantada por Mick Jones, e Rock the Casbah, construída a partir de uma ideia musical de Topper Headon. Foram também fundamentais para levar os Clash a um público ainda mais vasto, particularmente nos Estados Unidos.

O disco contou igualmente com várias participações. O poeta Allen Ginsberg, figura histórica da Beat Generation, surge em Ghetto Defendant, enquanto o artista de graffiti nova-iorquino Futura 2000 participa em Overpowered by Funk. Joe Ely contribuiu com vozes em Should I Stay or Should I Go, e músicos como Gary Barnacle e Tymon Dogg aparecem também nos créditos do álbum.

A própria construção de Combat Rock foi atribulada. Mick Jones tinha preparado inicialmente uma versão mais extensa e experimental do material, conhecida como Rat Patrol from Fort Bragg. Glyn Johns acabaria por trabalhar na mistura e ajudar a transformar essas gravações num álbum mais compacto e direto, sem eliminar completamente a vertente experimental dos Clash.

The People’s Hall: quarenta anos depois

Em 2022, o álbum voltou a ser revisitado com Combat Rock / The People’s Hall, edição especial lançada a 20 de maio para assinalar os seus 40 anos.

A reedição junta às doze faixas originais outras doze gravações, entre material raro, versões alternativas e temas inéditos relacionados com o período que antecedeu Combat Rock. O título recupera o People’s Hall, espaço situado na ocupada Republic of Frestonia, perto de Latimer Road, em Londres, onde os Clash ensaiaram e gravaram depois de regressarem da célebre residência de 17 concertos no Bond’s Casino, em Nova Iorque, em 1981.

Entre o material recuperado encontram-se uma versão de Know Your Rights gravada no People’s Hall, o instrumental He Who Dares Or Is Tired, The Fulham Connection e Idle in Kangaroo Court.

A celebração dos 40 anos permitiu ainda a edição oficial, pela primeira vez, de duas gravações dos Clash com Ranking Roger, vocalista dos The Beat: versões de Rock the Casbah e Red Angel Dragnet. Foram lançadas separadamente em formato digital e num single de 7 polegadas.

O princípio do fim

Há uma contradição particular em Combat Rock. O disco que proporcionou aos Clash o seu maior sucesso internacional surgiu precisamente quando a formação clássica começava a desintegrar-se.

Topper Headon deixaria a banda pouco depois e Mick Jones seria afastado no ano seguinte. Quando Cut the Crap chegou, em 1985, apenas Joe Strummer e Paul Simonon permaneciam da formação que tinha gravado Combat Rock.

Mais de quatro décadas depois, vale a pena regressar ao álbum para lá de Should I Stay or Should I Go e Rock the Casbah. Por detrás dos grandes singles existe um disco inquieto, político e musicalmente aberto, onde guerra, desigualdade e autoritarismo coexistem com dub, funk, hip-hop e punk.

Combat Rock acabou por registar um momento paradoxal: os The Clash atingiam a sua maior dimensão pública precisamente quando começavam a desfazer-se por dentro.

Foto de Destaque: Pennie Smith

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