Em dezembro de 1992, os Mão Morta editaram um disco construído como uma viagem. Mas em Mutantes S.21 não há monumentos, paisagens tranquilas ou indicações para turistas. As cidades aparecem de noite, vistas a partir das suas margens, povoadas por excesso, desejo, violência, drogas, isolamento e personagens em trânsito.
Era o quarto álbum da banda de Braga e representou um momento de viragem no seu percurso. Até então, os Mão Morta eram já uma referência no circuito alternativo português, mas permaneciam distantes de um público mais vasto. Mutantes S.21 não tornou a sua música mais convencional; encontrou, isso sim, uma forma mais definida de organizar aquilo que já fazia parte da linguagem do grupo.
O conceito percorre nove lugares: Lisboa, Amesterdão, Budapeste, Barcelona, Marraquexe, Berlim, Paris, Istambul e, por fim, Shambalah, território imaginado que encerra o itinerário. Cada tema funciona como um episódio autónomo, mas o conjunto mantém uma atmosfera comum. As cidades deixam de ser simples espaços geográficos e transformam-se em cenários mentais, deformados pela experiência de quem os atravessa.
A voz de Adolfo Luxúria Canibal ocupa o centro desta viagem. Mais próxima da declamação e da representação do que do canto convencional, não se limita a narrar as histórias: dá corpo às personagens e acentua o desconforto das palavras. À sua volta, guitarras, baixo, bateria, teclados e programações constroem um som denso, onde o rock se cruza com o pós-punk, a eletrónica e uma dimensão quase teatral.
O disco começa em Lisboa (Por Entre as Sombras e o Lixo), colocando imediatamente o ouvinte num espaço urbano degradado e alucinado. A partir daí, cada mudança de cidade altera o cenário sem quebrar a continuidade. Marraquexe e Istambul introduzem estruturas e ambientes particularmente inquietantes; Berlim e Paris aprofundam o lado mais sombrio e dramático do álbum.
No centro da memória coletiva ficou Budapeste (Sempre a Rock & Rollar). A canção tornou-se o tema mais reconhecido dos Mão Morta e ganhou uma exposição pouco habitual para a banda através do videoclipe produzido para o programa Pop-Off, da RTP2. A sua circulação televisiva e radiofónica ajudou a levar o grupo para além do público que já acompanhava o circuito independente.
O alcance de Budapeste, porém, não deve reduzir o álbum ao seu single mais conhecido. Mutantes S.21 funciona sobretudo pela coerência do conjunto: nove paragens de uma mesma deslocação, ligadas por uma visão urbana onde o fascínio e a ameaça permanecem quase indistinguíveis.
O álbum foi gravado em maio e junho de 1992 nos Estúdios Angel, em Lisboa, misturado por José Fortes e produzido pelos próprios Mão Morta. A edição original, lançada pela Fungui, teve também uma versão acompanhada por banda desenhada, prolongando visualmente o conceito das canções. Os créditos completos e as letras permanecem disponíveis no arquivo oficial da banda.
Vinte e cinco anos depois, os Mão Morta regressaram ao disco numa digressão em que interpretaram integralmente os seus nove temas. O projeto incluiu novas criações visuais e deu origem a um registo documental realizado por João de Sá. A recuperação do álbum não funcionou apenas como celebração de uma data: mostrou que aquelas cidades ainda podiam ser reconstruídas em palco e reconhecidas por gerações que não viveram a edição original.
Ouvido hoje, Mutantes S.21 conserva sobretudo a força da sua linguagem. Algumas referências pertencem claramente ao início dos anos 90, mas a experiência urbana que descreve — fragmentada, excessiva, anónima e atravessada por perigo — não ficou encerrada nessa época. Mais de três décadas depois, continua a ser um mapa sem indicações seguras e um dos pontos essenciais para compreender o universo dos Mão Morta.